Pesquisadores da Universidade Cornell identificaram uma diferença celular no cérebro de raposas prateadas domesticadas que pode ajudar a explicar como a reprodução seletiva as tornou mais tolerantes aos humanos. O estudo, publicado na Current Biology, comparou raposas de linhagens dóceis, agressivas e selvagens não selecionadas, desenvolvidas por meio do longo experimento siberiano com raposas prateadas.

A equipe concentrou-se no hipotálamo ventromedial, ou VMH, uma região cerebral envolvida em vários comportamentos fundamentais, incluindo defesa social e agressão. Dentro de sua subdivisão ventrolateral, as raposas dóceis tinham menos neurônios que expressavam o receptor alfa de estrogênio, conhecido como ERα, do que as raposas agressivas.

Esse tipo celular foi associado ao comportamento de ataque em estudos com camundongos. Experimentos que utilizaram técnicas optogenéticas e quimiogenéticas mostraram que a ativação de neurônios positivos para ERα no VMH pode desencadear ataques imediatos. Por isso, os pesquisadores propuseram que uma redução nessa população neuronal poderia enfraquecer uma importante via subcortical envolvida na agressão.

As descobertas vêm do programa de reprodução lançado pelo geneticista soviético Dmitry Belyaev e sua equipe no final da década de 1950. As raposas foram selecionadas de acordo com suas reações aos tratadores humanos, e os animais mais amigáveis e menos temerosos foram usados para reprodução. Em seis gerações, a linhagem selecionada apresentou um comportamento significativamente mais dócil e passou a buscar a interação humana.

Pesquisas anteriores sobre a domesticação associaram mudanças comportamentais e físicas a processos envolvendo células da crista neural e hormônios adrenais. No entanto, as alterações neurais subjacentes à redução da agressão permaneciam menos claras. O estudo da Cornell aponta para uma população celular hipotalâmica específica como um possível marcador anatômico da seleção para a docilidade.

Os autores afirmaram que o resultado mostra que a seleção pelo comportamento social pode estar associada a mudanças em circuitos cerebrais profundos ao longo de períodos evolutivos relativamente curtos. Agora, eles examinam os mecanismos genéticos e de desenvolvimento que podem influenciar a formação ou a distribuição de neurônios positivos para ERα no hipotálamo das raposas.

O estudo, intitulado “Diferenças nos tipos celulares do hipotálamo associadas à seleção para a docilidade na raposa prateada”, foi escrito por Jared L. Klein, Darya V. Shepeleva, Anastasiya V. Vladimirova, Anastasiya V. Kharlamova, Andrew D. Miller, Anna V. Kukekova e Eirene Markenscoff-Papadimitriou.

Fontes: Neuroscience News.