Um estudo coordenado entre cinco laboratórios da Universidade da Califórnia em Berkeley, da UCSF e da Universidade Stanford não encontrou evidências reproduzíveis de que uma única dose de psilocibina produza melhorias comportamentais duradouras em camundongos. Os resultados foram publicados na Nature Neuroscience em 2 de novembro de 2026.
Os pesquisadores utilizaram protocolos harmonizados, linhagens idênticas de camundongos e uma dose de 2 miligramas por quilograma administrada por via intraperitoneal. Os experimentos avaliaram locomoção, esquiva, comportamento social, aprendizagem do medo e medidas de enfrentamento do estresse, usando aproximadamente 200 camundongos machos e fêmeas por experimento nos laboratórios participantes.
A psilocibina produziu efeitos agudos consistentes. Pouco depois da administração, os camundongos exibiram a característica resposta de contração da cabeça, um aumento temporário do comportamento relacionado à esquiva e uma redução na expressão do medo aprendido. Esses efeitos foram replicados nos diferentes locais do estudo.
Os resultados foram diferentes quando os animais foram testados 24 horas depois. Os dados agrupados não mostraram reduções estatisticamente reproduzíveis em comportamentos semelhantes à ansiedade ou à depressão, nem alterações na preferência social ou na aprendizagem de recompensa social, tampouco uma melhora consistente na extinção ou na retenção do medo. O consórcio também não encontrou evidências de que a psilocibina reabrisse um período de desenvolvimento proposto para a aprendizagem de recompensa social em camundongos adultos.
Os resultados de laboratórios individuais às vezes diferiram quanto à significância estatística. Em um exemplo envolvendo um teste comportamental padrão de desespero, dois laboratórios registraram melhorias significativas, enquanto três não registraram. Os pesquisadores disseram que basear-se apenas nos resultados positivos poderia contribuir para o viés de publicação, especialmente quando os estudos utilizam amostras pequenas.
Os autores do estudo também destacaram as limitações de traduzir testes comportamentais com roedores para a pesquisa sobre depressão em humanos. Medidas como a imobilidade em um teste de natação forçada não podem representar plenamente a complexidade psicológica da depressão humana nem as experiências subjetivas associadas ao tratamento psicodélico guiado.
Os pesquisadores observaram que as experiências psicodélicas humanas são influenciadas por fatores que incluem expectativas, estado emocional e ambiente social. Eles também apontaram a dificuldade de representar esses elementos em experimentos com animais isolados, assim como as diferenças entre os usos comunitários tradicionais dos psicodélicos e os modelos laboratoriais reducionistas.
Segundo o estudo, variações em fatores como a origem dos animais, o sexo do responsável pelo manejo, os procedimentos de habituação, o tamanho do recinto e o horário dos testes não explicaram a ausência de efeitos persistentes nos resultados combinados. Os autores descreveram as descobertas como uma recalibração para a neurociência básica, e não como evidência contra o potencial valor terapêutico da psilocibina em humanos.
O consórcio argumenta que identificar efeitos confiavelmente reproduzíveis, incluindo as alterações agudas na expressão do medo, pode ajudar os pesquisadores a se concentrarem nos circuitos neurais associados a essas respostas e a aprimorar o desenho de futuros estudos sobre psicodélicos.
Fontes: Neuroscience News.